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Histeria: sintoma de doença ou prova de saúde?

Pensar sobre a história do género feminino invoca incontornavelmente o tema da histeria, não só por se tratar de uma questão de saúde mental tipicamente associada às mulheres mas, principalmente porque a possibilidade de compreender as suas implicações foi um passo na construção dos direitos da mulher.

No discurso vulgar a histérica é aquela mulher que apresenta uma personalidade pseudo-hiper-sexual, extremamente exagerada nos seus pensamentos e sentimentos, apresenta acessos de mau humor, tende a chamar as atenções sobre si mesma e é extremamente sedutora…

O termo como é utilizado correntemente designa um quadro clínico que ao longo da história da clínica nem sempre foi encarado como uma questão de saúde mental.  Na época medieval as mulheres que apresentavam alguns dos sintomas bizarros que por vezes ocorrem na histeria eram julgadas como bruxas, feiticeiras ou possuídas pelos demónios. Alguns dos sintomas frequentes na época passavam por paralisia de membros (braços, mão, cegueira), surtos de cólera ou de leviandade, o que, dada uma norma social bastante assente nos bons costumes de uma religião castradora, não era de fácil aceitação. Embora fosse uma forma cruel de sarar o problema, não era muito diferente do que era o modus-operandis em situações de lidar com aquilo que ainda não se conseguia compreender.

Felizmente o estudo psicopatológico avançou o suficiente para compreender. Sendo Freud um dos pioneiros numa abordagem humanizada, permitiu compreender as características subjacentes aos sintomas manifestos, trabalho este que é parcialmente retratado no filme “Um Método Perigoso”. Os sintomas manifestos da configuração da histeria traduzem de uma forma concisa a origem do problema: a sexualidade da mulher. Entenda-se que sexualidade enquanto toda a dimensão da liberdade de procurar e obter satisfação na vida, independentemente do meio em que tal se realize.

Curiosamente, em termos históricos, a prevalência desta patologia tem vindo a diminuir com a progressiva abertura com que os temas que anteriormente constituíam tabus se têm vindo a desmistificar.

Se em tempos a patologia histeria era o sintoma de doença, hoje pode compreender-se que o sintoma apenas revela uma pulsão saudável que pretende simplesmente realizar os desejos mais banais que podem cruzar a intimidade feminina.

Embora não se possa dizê-lo literalmente, não é incorrecto afirmar que a histeria é uma patologia em vias de extinção, pelo menos dentro do quadro dos sintomas clássicos. Actualmente o quadro revela-se em sintomas menos exuberantes e manifesta-se principalmente na forma como os afectos são vividos, não estando tão assente em repercussões físicas, como a frigidez ou o vaginismo. Por exemplo, na dificuldade em manter ao longo do tempo uma vida sexual satisfatória com o cônjuge por desconforto em viver abertamente os desejos sexuais, alguma frigidez ao abordar temas delicados de pessoas próximas e extrema sensibilidade com vítimas de violência ou repulsa face a algum contacto social por assunção de que poderá estar implícito um desejo carnal…

Todas estas questões podem ser superadas em contexto psicoterapêutico, permitindo que a mulher reconheça na sua personalidade os factores que a levam a estar em permanente luta contra ela própria, libertando-a assim dos próprios padrões opressores daquelas que são as normas de gênero .